quinta-feira, 3 de abril de 2008

Por que ao pai?



A Criança................
Por que ao pai?
Se conservam direitos plenos!
Dos males e os Venenos!
De seus sonhos e meus desejos?

Por que ao pai?
Os direitos são eternos!
E para eu que sou filho
Há a espera da angustia de teu corpo inteiro?

João responde...........

A cada hora, a cada passo
Eu te nego, e espero ainda ser meu profeta
Em todo momento, em cada ato
Surge um auto retrato, com as gotas do teu peito!

Quanto tempo ate minhas unhas crescerem?
Ate que o suor brote como o sangue em meu peito?

Já escondi a perfeição no fio da navalha
Cortando sua face, e a deixando em migalhas!



* Trecho da Ópera rock "Cabaré de Cego" by Marcus Müller; Mov 8º; Cena 3

"Mais rápido, não tenho todos os centímetros do mundo"



Cada centímetro daquele beijo, cada quimera daquele queixo. Toda a sabedoria daqueles olhos cinza, qualquer facilidade era obstruída. Sentado se tornava de pé, aos pés dos santos, imagens patuás, pragas e destilados, ambos cortantes, a tranqüilidade afligindo níveis drásticos de respostas sem questões, e gritos objetivos em paredes brancas. Pensou que certamente estaria em um hospício? Estaria tranquilamente pescando com noutros primos? Qual conexão entre os fatos, a realidade inerente o francês idiotamente atraente, Focault, Rubens Pierre, bobagens. A moda passou, teu vestido encolheu, a visita sempre vai embora. Algum "irreverente" lhe dando uma bunda de couro transvertida de jaqueta, poucas e muito menos boas, de modo que, ele estava ali.

- Quem é João Gilberto? Quem é Maria Flor? - Intensamente carregava teus olhos tensos, o cinza quase verde, o estranho ninho onde o canário sorri, flertava com suas concepções. Tornava a dizer sozinho, a praguejar pelos cantos: - Gosto disso e adoro isso! Algo melhor do que a incerteza da praga e parar somente onde essa nossa rota de fuga se destina? Acho que não. Sinceramente ando mais calmo, mais cafeína, mais e maus projetos me alegram.

De certa forma seria inviável alguém perceber isso. Claro, todos somos muitíssimo santos, apócrifo cairia melhor que Beatles ou Stones. Que empatia seria essa entre ele e seu cão, que confortava da virgem à rameira? Então ele me respondeu:

- Quantas questões, não se cansa de brincar de "eu"? Essa circunstancia chata e impertinente, qual seu problema com isso? - Novamente nem sabia de sua própria sapiência, talvez Bucéfalo soubesse, ele não.

Tantos jargões batiam em sua cabeça, de modo que, ao rugir da noite, seu peito vazio, suas dores no corpo e um conforto. Oh sim, um grande conforto! Celebramos à ti a vida! Sim, deus guie a cafeína! Uma rainha tão grande como a Nicotina, um teste sanguíneo se mostra completamente desnecessário. A fim de julgar, odiar mais, gostar mais, estar mais, vestiu sua calça xadrez, sua camisa preta, óculos escuros para evitar a hipersensibilidade. Mesmo que ninguém o esperasse, confirmou o café da tarde com sua sombra. Quem se importa? Muita gente diria sua avó, muitos parentes confrontariam o exílio interno, mas era tão fundido com as mangas de sua camisa, tão bêbado quanto suas cordas vocais, sinceramente sentia-se irrelevante como uma abelha rainha de Wally Salomão. (Sabe quem é Wally Salomão? Por favor não se informe no Google é ridículo.) Quantas batidas da marcha tocaram ate sair de casa? Um momento indefinido entre a abertura 1812 e a ilusão de muita gente ser intelectual, tão fraco como decorar as passagens de um livro sem saber seu significado pessoal, quem não faz isso? Bom meu caro ele não faz, parece realmente só lembrar de futilidades. Ah sim, deliciosas futilidades!

Diga-me o sábio Gilberto, por que mudaria eu o texto? Por que tu estarias sóbrio?

- Não sei, porquê? Me separei de Flor, Valentina rompeu, Julliet. Sim Julliet foi a única que mantém minha memória, o coma talvez tenha passado, o canhão rompeu seu lacre, e sim você é um asno em me perguntar isso.

Tranquilamente e certamente você seria mais canalha que eu. Contudo ainda tenho que lhe questionar, se não qual seria minha função ao texto? Ei de valorizar meu pro labore.

- Realmente, nada seria mais interessante que lhe roubar isso, assim como tu roubou-me o sono. Vou te explicar o que me consta! Você é uma versão de Besame mucho, só que teu marca-passo não funciona como uma agulha Hi-fi.

Desculpe João, o único Hi-fi que conheço é a bebida.

- Naturalmente não é tão bom saber de si, quando todos comentam em sua volta.

Ninguém comenta em minha volta, eu sou o narrador, bom eu era. Acho que vou me demitir.

- Seria perfeito, se aplicaria a minha teoria, adoro teorizar quanto à isso. Você se prende a mim como a borboleta à lâmpada meu caro. Tire-me de ti, e tirara seu pedaço mais influente.

Que dramático você.

terça-feira, 11 de março de 2008

Enjoy

O bar estava lotado, as pessoas entrando em batalhões uniformizados, o negro bordô e o branco catalisavam e destilavam quaisquer expectativas que pairassem ao ar. As ideias captadas à quilômetros de distância, soltas como a poeira é absorvida pelos pulmões, os dois trabalhavam, e como trabalhavam, tudo tão meticulosamente calcado em calçados, calças e jaulas, cada pensamento absurdamente contido em quinze segundos. No balcão mais um semanário, um diário esportivo e a usual plataforma de cólicas. Ela chegou pediu um café, uma torrada e alguns grãos de açúcar, e inevitavelmente olhei cordialmente ela respondeu:

- Posso ficar por aqui? - (Seus olhos pintados de negro contrastavam com o cinza da cavidade nasal, as bordas dos lábios tão finas que uma esferográfica jamais poderia eu delinear.)

Respondi logo que a gagueira e a vista turva corresponderam: - Claro querida! Quem sou eu pra evitar que Deus exponha suas obras? - (Senti-me um imbecil, claro, sem sombra de duvidas à esse momento era quase um peão nas mãos de um ignorante ao xadrez)

Ela sorrira com um cinismo tão gracioso que somente os ordinários como eu entenderia as turras entre o amor e o absinto verde que jorrava agora de todas as lembranças da minha passada encarnação. As doses árticas que meu corpo transmitiam deviam apressar meu coma, sequer mais palavras pronunciei, como o aço fiquei ate a sua próxima sentença, infelizmente nunca veio. Demorei-me então, fixei o olhar à um pôster, "enjoy", "allways", essas palavras realmente faziam muito mais sentido com ela ao lado. As cores do vestido, as listras vermelhas e negras, as unhas simétricas, e o porte, ah o porte, jamais em tempo algum encontraria um porte daqueles, como diria, em uma corrida de cavalos aposte no vencedor.

Ela sorriu quando na fração de minutos eu expus minha exaltação, conforme o planejado por alguém que não me atrevo à dizer ela repetiu em alto e bom som.

- Adoro essa musica! Roberto Carlos sempre me excita com as curvas e as estradas tortuosas. (Agarrou-se ao meu cinzeiro, abruptamente e inconsequentemente).

- Aceita um cigarro? - fiz apenas o gesto, e provavelmente ele dizia mais que qualquer infortúnio que eu falasse.

- Qual cor? Classifico tudo por cores sabe, como por ex, você. - (Fez uma breve pausa.) - Me parece ser tão negro e cinza, tão elegantemente desconfortável nesse blazer azul da Prússia. Diga-me você tem nome?

Como poderia passar de lá pra cá, caminhar durante um bolero sem entrar em uma brutal melodia que tapasse meus olhos e irritasse minhas narinas? Eu não saberia responder apenas peguei dois cigarros e doei-lhe um.

- O cigarro é vermelho, querida. E vamos ficar sem nomes, sem passados, sem parceiros. Apenas nós aqui, você como qualquer bailarina pode ser, e eu como qualquer... (belo trago, e alguma pausa entre a articulação e a sombra da boca)... Bom eu como qualquer um, afinal pra que não é.

Como um gato intrigado com o peixe no aquário os olhos dela fixaram em minhas palavras calhordas, afinal o que além de um cigarro ela poderia querer o que além de um "oi" ela poderia esquecer. Qualquer nota à esse comportamento seria exagerada, imbecilmente, imoralmente, e talvez mais estranho que qualquer homem eu levantei, estendi-lhe a mão e a puxei. O Bolero corria tão solto quando nossos sorrisos amarrados, os pés fitando um o outro, a sala ou pavilhão, vazia, mas cheia de almas, o baile de 73 era realmente fantástico.

terça-feira, 4 de março de 2008

Bilheteiro do Diabo


Algum dia na vida ela terá de me explicar o que pensou ali! Suas memórias, a atmosfera do clima, o terror inerte dentro de uma pequena bolsa de mão, geralmente me causam esse pavor. Eram quatro da manhã, a madrugada com teu ar gelado, ela e eu apenas na praça, as árvores encobrindo qualquer vergonha que poderíamos ter furtos, roubos e os demais crimes capitais que praticamos todos os dias. A luxuria que brotava de tua imaginação era de embasbacar qualquer dona de casa, a cinta liga, a casaca de couro negro, tão negro quanto teus olhos e cabelos emolduravam minhas recordações das horas anteriores, foi quando ela me beijou.

Há algumas horas estávamos sóbrios, os picos, as doses, as altas risadas de adrenalina ainda não tinham penetrado nosso corpo, a fonte dos prazeres reprimidos por Bocage nem de longe tinha sido tocada. "Imperativo que se tome cuidado com pessoas de terceira idade!", foi o que ela me disse antes de sacar da automática cromada, e alvejar uma velha senhora na fila da bilheteria, três tiros bastaram e entre os instantes predestinatórios do som dos disparos e o alvoroço popular poucos gritos foram dados, nunca me senti tão vivo. "Manda-me rosas mortas toda manhã!", como dizia Jagger ela reproduzia entre os dentes o sorriso mais belo que eu poderia notar, o silencio já dizia a muito mais entre nós dois, os olhares mais impiedosos que os toques e amassos que poderíamos dar, e dávamos. Eu me imaginava contido, mas qualquer que fosse a sua reação teria obviamente a minha maturada posição, estava tão disposto quanto um coveiro ao partir a terra ao meio e como Moises fez ao ranger dos dentes divinos abrir meu próprio mar vermelho e escapar da tirania faraônica.

Engraçado como o tom vermelho vindo do sangue na pele branca da senhora vazia-me como se ela visse deus, era difícil acreditar que ela não tinha razão, "É imperativo", pensei. Seria um bobo besta ou qualquer tipo de mentalmente perturbado em dizer que não, permanecemos não mais do que alguns instantes nesse marasmo inerte, a visão do paraíso logo ali, quando a policia chegou. Dava para ver entre os olhos dela, o sortido desejo de pecar, ali, na frente do esquadrão, e todo o pavilhão se renderia cheio de graças à beleza de nossos corpos. Apoiamo-nos um ao outro, dedicamos mais uma nova canção e viajamos para nosso Éden, exatamente as quatro da manhã, com o vento frio, a cinta liga, e a luxuria que a proteção da chuva fina nos traria.

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2008

Maria e João


Flor, você pode me acender um cigarro?
Flor, enquanto eu rezo você absolve meu pecado?
Flor, minhas lagrimas gritam por todos os lados!

João, pode reler o mesmo livro outra vez?
João, será que eu deixo mais recados sobre a mesa?
João, como posso gostar de olhar se ainda sou cega?

João, tem um vestido de gala,
Pra mim?
Flor, será que essas costas são largas demais,
Pra mim?

Flor, como seu velho bebê e chora!
Todas as vezes que caio e escuto
Que meu vicio mata!
Flor, há alguma droga que eu possa usar em paz,
Que acalme meu corpo?
João, quantas notas você ira tocar,
Enquanto eu durmo?

Mãe, por que deixar seus garotinhos distantes?
Se nossa febre arde como dois espinhos!
Mãe, por que resistir se todos temem você?



Imagem: Mark Ryden

Monólogo entre O Demonio e o Deus.


Novamente estava cheio de suas visões, usava dos gritos de seu silêncio a lança para combater o frio na espinha, do carpete vermelho até as pequenas demonstrações de afeto. Algumas vezes deixava florescer dentro de si uma pequena cavalgada, mas um tiro no asfalto, mas uma garrafa terminada e assim resumiam suas virtudes? Esse que nunca foi teu forte. Nesse nosso pequeno emaranhado de fitas adesivas anti-tabaco, nessa clínica de reabilitação constante, sentimos a falta da nostalgia balsâmica, da reação imoral e atemporal de se reescrever uma velha ferida, durante os anos e as modas, os verões e outonos, do francês ao inglês dos cabelos de Brigitte Bardot, ate as frívolas imaginações de Piaf, maldito seja o vicio, maldito seja a falta do vicio, e assim pensou.

- Deus não sabe o que me vale se eu calar sua voz! - Imaginando-se sozinho, ao calor de um corpo, aos foros unânimes de seu juízo. Prosseguiu. - Deus, não me espera entender um milagre apenas apagando a luz? Eu que sou apenas teu fardo, eu que volto ao negro, ao teu tubo negro, teu scarpin que não senti, tal qual o tatame ligava você a mim, que nem mesmos os sushis de sua existência responderiam com sua extra textura.

Tuas questões iluminavam teu coração, e os clichês de suas posições acariciavam tão facilmente seu peito que um enfarte não seria novidade, seguiu apenas comentando, as mãos na cabeça e a dor muscular de se deitar.

- Eu não voltarei ao tumulo que sai, não seria tão dramático assim, já estou aqui, falando contigo, pedindo, e isso não é natural. A contradição imposta em minhas frases, e os berros soltos à sua face remontam a imagem e semelhança do Cristo, tu que jamais me apoiou, e entrou em mim como uma farpa, enquanto a harpa tocava tuas canções celestiais, enquanto o asco vermelho dizia ser azul, e frasco de vitaminas já não me bastava, ao exílio e ao consumo, que tu me guiaste, hoje eu sigo cada dia atormentado, uma leve lembrança do passado, e um piano maldito ao inferno, que se danem os adjetivos, que se reclame de volta o profeta, quando a Cabala diz, e meus astros regem, você pra longe, distante, teu olhar cada dia mais penetrante, fotos apenas fotos.

Deitou e acalentou-se com o céu, os olhos fechados, os dedos fechados em suas mãos e a leve impressão de que já era tarde.

- Alguma composição interpretada por Piaf seria menos melancólica? Algum dia você enxergaria fora os edemas em minhas costelas? Que adão fez um péssimo trabalho já sabemos, que um deveria ser dois não consigo compreender, mas me faz reler a síndrome Peter Pan, me faz enlouquecer e buscar o caminho de olhar sempre pra trás com saudade.






quinta-feira, 14 de fevereiro de 2008

My Funny Valentine


Os dedos caminhavam lentamente sobre as curvas bélicas, as calcinhas comestíveis de zebra convidavam apenas um individuo, aqui tudo era como uma doença, uma luz vermelha, o negro e o cinza e acalentando a dor, a morfina. O tapete de feltro, as guias da escada, o som das risadas vindas do corredor atarantavam esse senhor. Meio quilo de carne e ossos dispostos uniformemente entre a jugular e a pélvis. Todavia estava lá, este senhor, aquela senhora, a inebriante mistura de pó com calcanhares, as teclas ressonantes do piano e as paredes fulminantes como Nápoles. Todas as citações cobertas de enguias, Cowboys punks, princesinhas egípcias, 2000 quilômetros para o inferno e o calor nunca foi tão convidativo. O café esfriando sobre a mesa enquanto o tórax abocanhava seu destino, lá estavam as dores e as camélias, as pequenas frustrações e as miseras ilusões, todos nós percebíamos o foco, mas a humanidade com seus rituais de magia cristã abominavam toda e qualquer perversão, as vezes se sorria, as vezes se mordia, um sax alto, uma trombeta, poucas e boas alegrias.

My Funny Valentine à esquerda, o aroma e a cúpula distantes dos gases Sarin, das forcas e de quaisquer sensações psíquicas. Normativas, artísticos, criativos, dois corpos efervescestes, ante braços entrelaçados, e uma placa de Cuidado, Perigo. O período fértil de um óvulo vazio. Nosso velho bolero, nossa antiga quermesse, a vida monástica abandonada pelo dinamismos da ardência juvenil. My Funny Valentine, de olhar distinto, frescores e distúrbios hormonais, a Rússia logo aqui, o México em seguida, um segundo traçado como uma vida. Os desatinos variados entre as partes já lascadas dessas peles, o couro irritado, o misto de satisfação e agonia, o êxtase, o tremor arredio de uma perna, a insalubridade dos desejos e sabores. Assim tocou a ultima sinfonia, ate o próximo movimento, até o armazém puxar da linha férrea um adjetivo melhor, um cadeado mais frouxo à um coração mais novo.

Todas as chaves, e brochinhos, todos os tubinhos negros com um jazzista ofensivo. Cada sentido estava apurado, um truque hormonal, um castigo. Uma datilografia, e todos os códigos Morse, a respiração ao pé do ouvido como o arrepio e a forca, estampidos, dividas e forças, uma luta cruel entre o querido e a querida, desprovidos de contato, aquecidos e arquétipos de Fausto, um enfarte e nada mais.